sábado, 10 de abril de 2010

Sexualidade e "Viver a Vida" - parte 2

Ao contrário das suspeitas do senso comum, diferença funcional não é sinônimo de problemas sexuais. A inadaptação sexual de um casal pode ocorrer por inúmeros fatores, inclusive fatores banais! Que o digam os terapeutas e advogados de família... Em se tratando de diferença funcional, é sabido que há casos em que a sexualidade pode ser afetada em maior ou menor grau, mas o golpe mais cruel é dado pela desinformação e pelo preconceito. Os obstáculos reais, quando ocorrem, podem perfeitamente ser contornados com ajuda médica e terapêutica. Se a nossa vida sexual não anda (e isto vale para todos. TODOS mesmo!) certamente há algo de errado com a nossa cabeça, muito mais do que com a nossa genitália, ou nossas pernas.

Quando um de nós se fecha para a vida, especialmente quando a recusa é no campo sexual, estamos reverenciando o preconceito com o nosso silêncio. Não importa o que as pessoas pensam sobre a sua sexualidade. E não importa nem mesmo o que a sua família e a família do seu parceiro ou parceira pensam sobre a sua sexualidade. O que importa é o que você pensa! E se você tem duvidas e medos, é preciso encará-los. É preciso reagir e buscar ajuda!

Conforme temos visto, a Luciana também possui dúvidas, medos, e apesar de tudo ela não se mostra refém das dúvidas e medos. Numa conversa que teve com a mãe do seu namorado ela se mostra segura, disposta a conhecer melhor seu corpo e sua sexualidade. Em outras palavras, ela quer experimentar. Isto mesmo: ex-pe-ri-men-tar! Essa atitude exploratória em relação ao nosso corpo e nossa sexualidade são fundamentais! É exatamente dessa forma que todo mundo entra para a vida sexual adulta: explorando, conhecendo, experimentando...

Não sei se a Luciana (ou o Manoel Carlos) poderá me ouvir, ou ler, mas, mesmo assim vou me dirigir a ela, oferecendo uma dica que considero fundamental:

Luciana, curta e explore seu corpo! Você precisa enriquecer seu vocabulário sensorial olhando e tocando seu corpo, sentindo cada pedacinho de sua pele. Sinta também os toques, as carícias e o contato físico com seu namorado... Tenho certeza que tudo isso pode ser muito agradável. Como você mesma disse à Ingrid, isto é, sim, muito simples! Agora preste atenção num detalhe fundamental: Esqueça, esqueça todos os seus referenciais do passado. Você agora possui um outro corpo. Nem melhor, nem pior. Mas, um corpo diferente. Esqueça, então, seus antigos referenciais e encare seu corpo como se vivesse uma nova puberdade, uma nova adolescência... Descubra-se mulher, garota!... E não deixe que os preconceitos e a tutela de terceiros obstruam sua busca. Seja espontânea e amável com você e por você.

E uma última coisa, Luciana: Não abra mão de ser feliz!


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* * *Palavras-chave: diversidade funcional; diferença funcional; pessoas com deficiência; pessoas portadoras de deficiência; pessoas deficientes; sexualidade e deficiência; psicoterapia; viver a vida; Ray Pereira.

6 comentários:

NEUZENIR disse...

REALMENTE ESSA NOVELA ESTÁ FAZENDO AS PESSOAS PENSAREM, UM POUCO!
A SEXUALIDADE DE UM PORTADOR DE NECESSIDADE ESPECIAL SEMPRE FOI MUITO QUESTIONADA, QUASE SEMPRE DE FORMA GROSSEIRA.QUANDO ESTAVA GRÁVIDA OUVI HORRORES, PERGUNTAS ABSURDAS, COISAS QUE NUNCA PENSEI EM OUVIR!
AS VEZES TINHA A IMPRESSÃO QUE DEVERIA ME DESCULPAR POR ESTÁ GRÁVIDA.

Raquel Lopes disse...

Subjetividade, curiosidade, interatividade... tudo isso compoe como nunca antes o tempo pós-moderno no qual vivemos. Nem sempre uma pergunta quer demonstrar preconceito ou ser grosseira. Muitas vezes a pergunta é decorrente de uma ignorância no sentido de desconhecimento. Ou por pura curiosidade inofenciva e inocente. Às vezes o preconceito está no ouvido de quem ouve. Mas,quero abordar a questão do permitir-se experimentar. Creio que na interatividade - que é mais que interação pois envolve comunicação - temos a oportunidade de conhecer e ser conhecido. Transformar informação em conhecimento faz toda diferença. Conhecer-se a si mesmo nem sempre é tão fácil. Às vezes fugimos do espelho. E fugimos por não saber se podemos dar conta de tudo o que somos. O melhor é ir descobrindo aos poucos. Afinal, tudo tem o seu tempo certo. E no tempo certo tudo é melhor. No tempo certo é como se tudo conspirasse à favor. Explorar o próprio corpo, no sentido de pesquisar o que gosta, o que não gosta, sentir o que agrada e o que desagrada... isso é explorar para conhecer, é muito importante. Quando nos conhecemos e deixamos que a pessoa que escolhemos por intimidade, afinidade e sentimentos interaja nesta descoberta e mutuamente se entreguem aos carinhos e carícias... o resultado é uma comunicação que transcende e nos mostra o quanto somos sexuados no corpo, mente e porque não dizer na alma... Afinal podemos encontrar nossa "alma gêmea". As palavras de ordem são: aceitação, respeito, exploração, sensibilidade, subjetividade, sentimento, toque, enlace...

mar e ilha disse...

Que texto bonito e instrutivo. Não só a Luciana devia ouvir suas palavras mas milhares de mulheres por ai.

Drika L.S. disse...

Galera, eu não assisto a novela, mas estou superficialmente conhecendo o que se passa com a personagem devido as conversas de rodas de amigos, internet e jornais. Mas, pra ser sincera, esse texto não serve apenas para a personagem da novela. serve para mim, para vc, pra qualquer pessoa independentemente de sua condição física, social, econômica e por ai vai...cada vez que eu visito este blog eu me sinto mais forte e revitalizada, porque tenho total consciência de que tudo isso que o Ray aborda serve para qualquer ser humano, inclusive eu mesma. Ele nem imagina o quanto esses textos me ajudam...Obrigada Ray por essa sublime contribuição!^^

Anônimo disse...

Muuuito bom esse texto, Ray Pereira!
queria que ele tivesse sido escrito a uns 10 anos qdo tentei recomeçar minha vida amorosa. Como foi dificil...

Espero que nao só a Luciana, mas todo mundo leia e aprenda que a nossa vida é tao sexual como de todo mundo.

valeu............

Claudia

Paty Lorete disse...

Acho muito legal a sexualidade dos que têm alguma diferença funcional ser abordada tão abertamente no horário nobre, e, melhor ainda, por vários dias seguidos. Como disse a nossa colega aí em cima, a Drika, ela não vê a novela, mas já ouviu sobre o assunto. Mesmo quem não vê a novela, está ouvindo... Os cadeirantes não são assexuados! Não existe padrão para sexo! Eles são iguais a mim! Quem não aceita, quem acha feio, quem tem preconceito...vai ter que engolir! rsrs...

Já vivi situações em que estava conversando, o assunto fluindo normalmente até alguém falar sobre sexo, sexualidade.... e ver as pessoas ficarem constrangidas porque tem um “anjo” na roda da conversa. Eu. Eu sou o anjo! rs... Nossa, como isso me irrita!
Quando isso acontece finjo que não percebi e entro na conversa apesar de só ter experiência teórica nessa área. Eu deixo bem claro que eu posso, que eu tenho direito, e.... que eu tenho vontade, né? kkkkkkkk
Acho que a “ Luciana” vai ajudar muito nesse processo de coincientização, de quebra de tabú!

Ray, seus textos são um presente!

Bjssssss pra todos